24/10/2011

Perder a memória



Acordei com medo de perder a memória. Lembrava-me, repentinamente, de tudo, Funes renascido, esquecia-me vertido um segundo. Era um turbilhão. Acordei e pensei que um dia esqueceria este medo. Fiapos de gente que também seria esquecida.

"Onde estás?". "Nos confins". "Onde, mesmo?". "Nos confins, essa terra de todos e gente nula, onde a memória se debruça num lago e acabar por sonhafogar-se em recordações". "Estás, portanto, à espera". "Sim, à espera, mas não de algo ou alguém". "Porque esperas, nesse caso?". "Espero até esquecer as mágoas. Espero até não achar mais os confins, até que eles me pareçam o centro de tudo e não lhes perceba a fronteira". "Aguardas a tua morte, é isso?". "Não, aguardo o tempo em que acordarei com medo de perder a ideia de morrer. É que perder a ideia de morrer significa perder a ideia de suspirar, o jeito de viver, a candura de amar um amor surripiado". "E a morte de outrém? A minha?". "A tua não a posso esperar. É um segredo teu e das tuas pegadas. Olha bem para elas. Se tiverem uma sombra penumbrenta, ela está à espreita".

23/10/2011

when I was older



when I was older,
I wanted to be a flight to heaven,
a thing of stars,
a show of tunes and blessed grass.

I when older wanted to know no bounds.
I was all figures,
I created myself
A thing of leaves,
A tree of scents.

when older I wished no anguish, no serenity,
only a calm of forests
nether hallows of no people and no storms.

when I was older I had orange hearts,
and purple hair, and cosmic minds.
and I worried none. because universes were mine to fly.


20/10/2011

quatro meses mais um




e.e. cummings

my father moved through dooms of love 
through sames of am through haves of give, 
singing each morning out of each night 
my father moved through depths of height

this motionless forgetful where 
turned at his glance to shining here; 
that if(so timid air is firm) 
under his eyes would stir and squirm

newly as from unburied which 
floats the first who,his april touch 
drove sleeping selves to swarm their fates 
woke dreamers to their ghostly roots

and should some why completely weep 
my father's fingers brought her sleep:
vainly no smallest voice might cry 
for he could feel the mountains grow.

Lifting the valleys of the sea 
my father moved through griefs of joy; 
praising a forehead called the moon 
singing desire into begin

joy was his song and joy so pure 
a heart of star by him could steer 
and pure so now and now so yes 
the wrists of twilight would rejoice

keen as midsummer's keen beyond
conceiving mind of sun will stand,
so strictly(over utmost him
so hugely) stood my father's dream

his flesh was flesh his blood was blood:
no hungry man but wished him food;
no cripple wouldn't creep one mile
uphill to only see him smile.

Scorning the Pomp of must and shall
my father moved through dooms of feel;
his anger was as right as rain
his pity was as green as grain

septembering arms of year extend 
yes humbly wealth to foe and friend 
than he to foolish and to wise  
offered immeasurable is

proudly and(by octobering flame 
beckoned)as earth will downward climb, 
so naked for immortal work 
his shoulders marched against the dark

his sorrow was as true as bread:
no liar looked him in the head; 
if every friend became his foe 
he'd laugh and build a world with snow.

My father moved through theys of we, 
singing each new leaf out of each tree 
(and every child was sure that spring 
danced when she heard my father sing)

then let men kill which cannot share, 
let blood and flesh be mud and mire, 
scheming imagine,passion willed, 
freedom a drug that's bought and sold

giving to steal and cruel kind, 
a heart to fear,to doubt a mind, 
to differ a disease of same,
conform the pinnacle of am

though dull were all we taste as bright, 
bitter all utterly things sweet,
maggoty minus and dumb death 
all we inherit,all bequeath

and nothing quite so least as truth
--i say though hate were why men breathe--
because my Father lived his soul 
love is the whole and more than all

05/09/2011

Descobrir a pólvora

Daniel Oliveira diz que "temos, em Portugal, como no resto do mundo ocidental, uma nova corrente ideológica. Uma espécie de neoliberalismo de Estado."

A noção de que o neoliberalismo é uma ideologia anti-Estado e anti-redistribuição continua a colonizar discursos mais ou menos progressistas, mais ou menos populistas e mais ou menos demagógicos. De um lado e de outro. Aquilo que me incomoda, quando esta noção é repetida ad nauseam, é relativamente simples. Primeiro, é falsa. Segundo, é perniciosa.

É falsa porque o tal "neoliberalismo de Estado" não é novo. O prefixo "neo-" é enganador, porque o neoliberalismo não recupera qualquer tradição liberal ou anti-estatista; é, como toda a gente percebeu em 1973, um conjunto de práticas que visa a reconfiguração do Estado para a providência corporativa e a transferência contínua do risco para a(s) sociedade(s). Não há aqui qualquer novidade. É dito, no mesmo texto, que "em vez do velho debate entre Estado Providência e Estado mínimo, aquilo a que assistimos é a uma síntese: o Estado cobrador." O "velho debate" morreu à nascença. Philip Mirowski já escreveu extensivamente sobre a genealogia e desenvolvimento intelectual daquilo a que se chama economia neoclássica e o seu braço armado, o tal "neoliberalismo". Os seus ideólogos nunca foram anti-estatistas; foram e são, isso sim, hipócritas com uma capacidade admirável, admita-se, para mistificar a realidade (equiparando democracia a capitalismo), usar preconceitos historicamente adquiridos para promover interesses ocultos e manipular o debate público, através de think-tanks e da monopolização sistemática dos meios de produção e difusão da informação. Foi assim que nos convenceram de que o seu espírito revolucionário e puritano servia os interesses da maioria.

É por isso que se acredita que o neoliberalismo é originalmente anti-Estado. Embora encerre uma contradição evidente com a prática neoliberal, trata-se de um artifício discursivo que legitima a sua ascensão - porque, assim, a cruzada neoliberal transforma-se em cruzada pela liberdade, contra a servidão e contra os interesses instalados. Apesar de ser uma cruzada reaccionária e conservadora que recupera as satrapias como imperativo político e dependeu sempre do patrocínio público para se impor enquanto senso comum.
Ainda que tenhamos provas históricas suficientes para contestar e enterrar esta ideia, ela continua a surgir. A palavra "fanatismo" parece exagerada, mas, olhando para Reagan, Thatcher, Roger Scott, Pinochet ou Carlos Menem, não podemos evitá-la. O neoliberalismo é estatista e os seus ideólogos não pretendem desarmar a sua arma preferida. São darwinistas sociais que acreditam na punição da diferença e não hesitarão em aumentar as despesas com a vigilância e a violência legitimada pelo Estado.

A ideia é perniciosa porque impede a esquerda de formular uma alternativa real ao pensamento único. Continuando a promover esta versão da história, comentadores como Daniel Oliveira legitimam a revisão da história do neoliberalismo. Legitimam a ideia de que o Estado continua a ser "destroçado" ou "minado" pela quinta coluna neoliberal. É necessário combater esta ideia. Aqui há uns tempos, já falei da obra de Loïc Wacquant. Em poucas palavras: se o neoliberalismo, após 2001, se transformou, foi ao deitar as garras de fora e acelerar a transformação do Estado num leviatã penal. Onde as regiões sombrias do mundo social são transformadas num pesadelo orwelliano e as regiões olímpicas parecem utopias saídas de Huxley. O Estado não está a ser minado pelo neoliberalismo. O Estado é, hoje por hoje, um instrumento de recomposição radical da realidade à medida de plutocratas. Não é o último reduto da justiça e democracia. Deixemo-nos de efabulações e chamemos as coisas pelos nomes. A esquerda anda em modo defensivo há décadas por várias razões. Esta é uma delas: fala-se muito do Estado, mas não se discute ou teoriza o mesmo. É um dado adquirido ou uma divindade incognoscível. Tiradas bafientas como "neoliberalismo de Estado" apenas contribuem para dar mais gás às mistificações de gente como o Álvaro, que diz não saber o que é um neoliberal.

31/07/2011

Scandinavian afternoon


Akersshusstranda, Oslo, 18:30: um grupo de 15 brasileiros faz a festa numa esplanada. Descubro-me iberoamericano uma vez mais, nesta terra de gente afável, mas pouco dada a grandes explosões (ainda assim, e dadas as circunstâncias - vêem-se flores, peluches e mensagens em Akers Brygge -, as gentes de Oslo parecem mais dadas a sorrisos e gargalhadas que em Berlim. Coisas curiosas.

23/06/2011

os títulos...

Caminhámos por esses regaços velhos, esses cântaros vadios. Eu de cinzas a tiracolo, tu algures, algures nos céus ou nos universos - conforme as sortes - tentando pesar pouco, pesar uma vida cortada ao meio.

E como é que isso se faz? Quando estás reduzido a cinzas e eu não sei porque é que devo continuar a agir como se todas as injustiças do mundo fossem importantes.

E eu quero uma vida velha, velha que me leve atrás na flecha do tempo, esculpi-la para que vá de marcha à ré e possamos começar onde nunca pudemos começar; repensar tudo o que devia ter sido repensado.

Choro por todas as palavras que ficaram por dizer. Foram muitas. Muitas e os teus olhos, que deitavam faúlhas lancinantes de tristeza porque foste obrigado a ir embora. E olhas-me. E olhas-lhe. E sabes. Que nada podemos fazer, a não ser limpar-te as lágrimas e fingir que os sons guturais emanados da tua garganta querem dizer alguma coisa.

Esperaste por mim. E era essa a pergunta que eu precisva de ver respondida.

11/06/2011

As coisas que ficaram por dizer



As coisas que ficaram por dizer. E que ficaram por ouvir. Que nós não somos de ferro, nem de aço, nem de furor.

Posso chorar, pai?