14/02/2012

tentativa

tu queres histórias
e queres mitos
e desejas mundos e fundos e ladeiras por onde descer
que fundos e ladeiras e mitos e histórias são
Invernos, porque somos portuguesas e eses e esas,
e pretos,
e brancos,
quero salvar-te mas não sei de quê;
quero descobrir-te mas não sei porquê;
são mundos e margens de rios.

tu queres mitos e queres histórias e queres os mundos e fundos das lágrimas
que te choram sem apego. queres as coisas, queres ser coisista, queres que as coisas se tornem
no Ti, no Teu, no teu Deus, compras em lojas de luz, compras doces e amargas,
somos todos Portugueses, portugueseS, somos o pregão da lua apagada,
andamos às escuras, andas às escuras em busca de histórias e eu não tas posso contar,
já as esqueci,
deixa-me chorar agora,
esqueci-me das histórias, esqueci-me de que os homens são mitos primeiros e segundos,
e terceiros-quartos-milionésimos,
porquê?, tu desejas mundos e fundos e ladeiras por onde descer,
e eu choro-te esses mundos e fundos e ladeiras por onde navegar,
é o mar que nos navega, é esse bandido que nos prende.

tu queres histórias e mitos e pregões de luas apagadas-acesas-meia(luz).

14/01/2012

Dois mil e doze


Dois mil e doze. Ano de luta e frases longas. Deixo as frases curtas para uma releitura de Molero e de Márquez, do Outono do Patriarca e Dinis Machado. Deixei as resoluções no mundo em que não tinha cabelos brancos e ainda tinha o meu pai por perto, a embirrar com as estrelas porque os desenhos as dizem de cinco pontas e não, elas têm mil milhões de pontas e outros mil milhões de brilhos curtos e longos. Era uma revolta que sentia com as representações do mundo, os seres humanos não têm ambição, esqueceram-nas grutas de Altamira, era nessas épocas escavadas que os artistas queriam pintar uma realidade nova nas grutas para esquecer um friasco danado, a carne de boi a crepitar e aqueles olhos crespos (talvez fossem as sobrancelhas a fazer reflexo na parede e terá nascido Deus e o Buda e Alá e todas as coisas que deram novos homens ao mundo) a pintar mais pontas nas estrelas do que elas têm na realidade. Os seres humanos já não sonham as utopias nem se deixam sonhar por elas; vejo-as anafadas, rutilantes, dormem num livro de histórias e nós todos não passamos de folhas de erva, planetas e planetas como gotículas nos sonhos das utopias anafadas. E o pior é que nunca mais acordam, dizia ele, o meu pai, nunca mais acordam e nunca mais fazemos a revolução, para estes cabrões serem todos passados a fio de espada, primeiro os pretos e depois os brancos - mas pai, não podes fazer a revolução socialista se acreditas nessas coisas - rapaz, deixa-me ser o que sou, porque, no fim, somos todos irmãos e não deixo o meu irmão preso na estrada, tronco no alcatrão fundido, só porque é preto ou chinoca; nisto estamos todos juntos e eu até gosto mais da pretalhada que desses ordinários, essas coisas nefastas que adoram o dinheiro e vão à missa comungar, mas não tocam no pão ázimo, tomaram o gosto das notas e preferem comê-las. Rapaz, só não me faças a desfeita: renega a religião, mas não te renegues nunca, que o teu maior tesouro é não sonhares com a servidão. Se deixas a coluna quebrar, até podes voltar a andar, mas nunca deixarás de rastejar, como estes penteados, esta classe de bandidos que corta árvores de madeira rara, esses colossos com que sonhei e não vou ver, para palitar os dentes, um de cada vez, afiado com moedas ensanguentadas, fincam a dentuça na carne e tu não deixes, rapaz, tu não deixes, que eles fazem-te doente, aquela fúria de nunca verem quem amam, onde é que isso já se viu?, quem é capaz de viver nessa fúria lamacenta?, vê só onde deixaram o mundo. Tens que fazer qualquer coisa, filho. Não te deixes levar por estes filhos da puta. Foi isto que ele me disse, no último olhar. E eu gostaria que isto fosse ficção, mas não é. Respirei o ar da morte e afundei-me naquele sofá, à espera que um vórtice se abrisse e o tempo andasse para trás. Mas não anda, para trás ou para diante, a não ser que Prometeu seja um labrego de tractor e se recuse a mexer o rabo. E é este o nosso desafio: ler nos olhos de quem nos deixa e tentar ver as grutas de Altamira, sonhos de um mundo justo e relações entre pessoas que não sejam mediadas pelo afã de saber exactamente quanto devemos uns aos outros. Se, um dia, puder dever tudo a todos sem preocupar-me com quanto devo, este universo será menos perverso. E talvez possamos olhar as estrelas, fazer amor com o tecto celeste, achar-lhes a lógica e sentir a história de mil mulheres entrar-nos no corpo, ali rodeados de ulmeiros milenares, ou salgueiros, quem sabe que árvores?, para voltarmos a saber o que é maravilharmo-nos com silêncios e sussurros. Se dois mil e doze for isto, se puder ver grutas de Altamira nos olhos de quem vir partir e o fim da Terra nos olhos de quem chegar, pode ser que ainda cá esteja no dobrar da alvorada.

24/10/2011

Perder a memória



Acordei com medo de perder a memória. Lembrava-me, repentinamente, de tudo, Funes renascido, esquecia-me vertido um segundo. Era um turbilhão. Acordei e pensei que um dia esqueceria este medo. Fiapos de gente que também seria esquecida.

"Onde estás?". "Nos confins". "Onde, mesmo?". "Nos confins, essa terra de todos e gente nula, onde a memória se debruça num lago e acabar por sonhafogar-se em recordações". "Estás, portanto, à espera". "Sim, à espera, mas não de algo ou alguém". "Porque esperas, nesse caso?". "Espero até esquecer as mágoas. Espero até não achar mais os confins, até que eles me pareçam o centro de tudo e não lhes perceba a fronteira". "Aguardas a tua morte, é isso?". "Não, aguardo o tempo em que acordarei com medo de perder a ideia de morrer. É que perder a ideia de morrer significa perder a ideia de suspirar, o jeito de viver, a candura de amar um amor surripiado". "E a morte de outrém? A minha?". "A tua não a posso esperar. É um segredo teu e das tuas pegadas. Olha bem para elas. Se tiverem uma sombra penumbrenta, ela está à espreita".

23/10/2011

when I was older



when I was older,
I wanted to be a flight to heaven,
a thing of stars,
a show of tunes and blessed grass.

I when older wanted to know no bounds.
I was all figures,
I created myself
A thing of leaves,
A tree of scents.

when older I wished no anguish, no serenity,
only a calm of forests
nether hallows of no people and no storms.

when I was older I had orange hearts,
and purple hair, and cosmic minds.
and I worried none. because universes were mine to fly.


20/10/2011

quatro meses mais um




e.e. cummings

my father moved through dooms of love 
through sames of am through haves of give, 
singing each morning out of each night 
my father moved through depths of height

this motionless forgetful where 
turned at his glance to shining here; 
that if(so timid air is firm) 
under his eyes would stir and squirm

newly as from unburied which 
floats the first who,his april touch 
drove sleeping selves to swarm their fates 
woke dreamers to their ghostly roots

and should some why completely weep 
my father's fingers brought her sleep:
vainly no smallest voice might cry 
for he could feel the mountains grow.

Lifting the valleys of the sea 
my father moved through griefs of joy; 
praising a forehead called the moon 
singing desire into begin

joy was his song and joy so pure 
a heart of star by him could steer 
and pure so now and now so yes 
the wrists of twilight would rejoice

keen as midsummer's keen beyond
conceiving mind of sun will stand,
so strictly(over utmost him
so hugely) stood my father's dream

his flesh was flesh his blood was blood:
no hungry man but wished him food;
no cripple wouldn't creep one mile
uphill to only see him smile.

Scorning the Pomp of must and shall
my father moved through dooms of feel;
his anger was as right as rain
his pity was as green as grain

septembering arms of year extend 
yes humbly wealth to foe and friend 
than he to foolish and to wise  
offered immeasurable is

proudly and(by octobering flame 
beckoned)as earth will downward climb, 
so naked for immortal work 
his shoulders marched against the dark

his sorrow was as true as bread:
no liar looked him in the head; 
if every friend became his foe 
he'd laugh and build a world with snow.

My father moved through theys of we, 
singing each new leaf out of each tree 
(and every child was sure that spring 
danced when she heard my father sing)

then let men kill which cannot share, 
let blood and flesh be mud and mire, 
scheming imagine,passion willed, 
freedom a drug that's bought and sold

giving to steal and cruel kind, 
a heart to fear,to doubt a mind, 
to differ a disease of same,
conform the pinnacle of am

though dull were all we taste as bright, 
bitter all utterly things sweet,
maggoty minus and dumb death 
all we inherit,all bequeath

and nothing quite so least as truth
--i say though hate were why men breathe--
because my Father lived his soul 
love is the whole and more than all

05/09/2011

Descobrir a pólvora

Daniel Oliveira diz que "temos, em Portugal, como no resto do mundo ocidental, uma nova corrente ideológica. Uma espécie de neoliberalismo de Estado."

A noção de que o neoliberalismo é uma ideologia anti-Estado e anti-redistribuição continua a colonizar discursos mais ou menos progressistas, mais ou menos populistas e mais ou menos demagógicos. De um lado e de outro. Aquilo que me incomoda, quando esta noção é repetida ad nauseam, é relativamente simples. Primeiro, é falsa. Segundo, é perniciosa.

É falsa porque o tal "neoliberalismo de Estado" não é novo. O prefixo "neo-" é enganador, porque o neoliberalismo não recupera qualquer tradição liberal ou anti-estatista; é, como toda a gente percebeu em 1973, um conjunto de práticas que visa a reconfiguração do Estado para a providência corporativa e a transferência contínua do risco para a(s) sociedade(s). Não há aqui qualquer novidade. É dito, no mesmo texto, que "em vez do velho debate entre Estado Providência e Estado mínimo, aquilo a que assistimos é a uma síntese: o Estado cobrador." O "velho debate" morreu à nascença. Philip Mirowski já escreveu extensivamente sobre a genealogia e desenvolvimento intelectual daquilo a que se chama economia neoclássica e o seu braço armado, o tal "neoliberalismo". Os seus ideólogos nunca foram anti-estatistas; foram e são, isso sim, hipócritas com uma capacidade admirável, admita-se, para mistificar a realidade (equiparando democracia a capitalismo), usar preconceitos historicamente adquiridos para promover interesses ocultos e manipular o debate público, através de think-tanks e da monopolização sistemática dos meios de produção e difusão da informação. Foi assim que nos convenceram de que o seu espírito revolucionário e puritano servia os interesses da maioria.

É por isso que se acredita que o neoliberalismo é originalmente anti-Estado. Embora encerre uma contradição evidente com a prática neoliberal, trata-se de um artifício discursivo que legitima a sua ascensão - porque, assim, a cruzada neoliberal transforma-se em cruzada pela liberdade, contra a servidão e contra os interesses instalados. Apesar de ser uma cruzada reaccionária e conservadora que recupera as satrapias como imperativo político e dependeu sempre do patrocínio público para se impor enquanto senso comum.
Ainda que tenhamos provas históricas suficientes para contestar e enterrar esta ideia, ela continua a surgir. A palavra "fanatismo" parece exagerada, mas, olhando para Reagan, Thatcher, Roger Scott, Pinochet ou Carlos Menem, não podemos evitá-la. O neoliberalismo é estatista e os seus ideólogos não pretendem desarmar a sua arma preferida. São darwinistas sociais que acreditam na punição da diferença e não hesitarão em aumentar as despesas com a vigilância e a violência legitimada pelo Estado.

A ideia é perniciosa porque impede a esquerda de formular uma alternativa real ao pensamento único. Continuando a promover esta versão da história, comentadores como Daniel Oliveira legitimam a revisão da história do neoliberalismo. Legitimam a ideia de que o Estado continua a ser "destroçado" ou "minado" pela quinta coluna neoliberal. É necessário combater esta ideia. Aqui há uns tempos, já falei da obra de Loïc Wacquant. Em poucas palavras: se o neoliberalismo, após 2001, se transformou, foi ao deitar as garras de fora e acelerar a transformação do Estado num leviatã penal. Onde as regiões sombrias do mundo social são transformadas num pesadelo orwelliano e as regiões olímpicas parecem utopias saídas de Huxley. O Estado não está a ser minado pelo neoliberalismo. O Estado é, hoje por hoje, um instrumento de recomposição radical da realidade à medida de plutocratas. Não é o último reduto da justiça e democracia. Deixemo-nos de efabulações e chamemos as coisas pelos nomes. A esquerda anda em modo defensivo há décadas por várias razões. Esta é uma delas: fala-se muito do Estado, mas não se discute ou teoriza o mesmo. É um dado adquirido ou uma divindade incognoscível. Tiradas bafientas como "neoliberalismo de Estado" apenas contribuem para dar mais gás às mistificações de gente como o Álvaro, que diz não saber o que é um neoliberal.

31/07/2011

Scandinavian afternoon


Akersshusstranda, Oslo, 18:30: um grupo de 15 brasileiros faz a festa numa esplanada. Descubro-me iberoamericano uma vez mais, nesta terra de gente afável, mas pouco dada a grandes explosões (ainda assim, e dadas as circunstâncias - vêem-se flores, peluches e mensagens em Akers Brygge -, as gentes de Oslo parecem mais dadas a sorrisos e gargalhadas que em Berlim. Coisas curiosas.