30/11/2010

Bilhete de Identidade



por Mahmoud Darwish

Escreve!
Sou árabe
e o meu bilhete de identidade é o número cinquenta mil.
Tenho oito filhos
E o nono chegará no fim do verão.
Terás raiva?

Escreve!
Sou árabe
Trabalho com os meus camaradas numa pedreira
Tenho oito filhos
Trago-lhes pão
e roupas e livros
a partir das rochas...
Não suplico caridade no teu alpendre,
nem me humilho à entrada do teu quarto.
Então, terás raiva?

Escreve!
Sou árabe
Tenho um nome sem título
Paciente num país
onde todos estão furiosos
As minhas raízes
estavam enterradas antes do nascer do tempo,
antes do início das eras,
antes dos pinheiros e das oliveiras,
e antes da relva crescer.

O meu pai descende da família do arado,
Não de uma classe privilegiada.
O meu avô era um agricultor,
Não era bem-criado ou bem-nascido!
Ensina-me o orgulho do sol
antes de me ensinar a ler
e a minha casa é como a cabana de um vigia
feita de ramos e canas
Estás contente com o meu estatuto?
Tenho um nome sem título!

Escreve!
Sou árabe.
Roubaste os pomares dos meus antepassados
e a terra onde cultivei
ao lado dos meus filhos.
Nada nos deixaste
A não ser as rochas...
E o Estado levá-las-á,
Como têm dito?

Portanto!
Escreve no topo da primeira página:
Não odeio os seres humanos
nem invado o seu espaço.
Porém, se tiver fome,
A carne dos usurpadores será o meu alimento.
Cuidado.
Cuidado
com a minha fome
e a minha fũria!

Ode to the Drum


por Yusef Komunyakaa

Gazelle, I killed you
for your skin's exquisite
touch, for how easy it is
to be nailed to a board
weathered raw as white
butcher paper. Last night
I heard my daughter praying
for the meat here at my feet.
You know it wasn't anger
that made me stop my heart
till the hammer fell. Weeks
ago, I broke you as a woman
once shattered me into a song
beneath her weight, before
you slouched into that
grassy hush. But now
I'm tightening lashes,
shaping hide as if around
a ribcage, stretched
like five bowstrings.
Ghosts cannot slip back
inside the body's drum.
You've been seasoned
by wind, dusk & sunlight.
Pressure can make everything
whole again, brass nails
tacked into the ebony wood
your face has been carved
five times. I have to drive
trouble from the valley.
Trouble in the hills.
Trouble on the river
too. There's no kola nut,
palm wine, fish, salt,
or calabash. Kadoom.
Kadoom. Kadoom. Ka-
doooom. Kadoom. Now
I have beaten a song back into you,
rise & walk away like a panther.

27/11/2010

História da esmeralda I

"Chega aqui. Quero contar-te uma história. Não tenho muito tempo, sinto os joelhos a liquefazerem-se. É importante que a ouças. Para mim, pelo menos". "Estou de partida. Despacha-te, velho, se é assim tão importante". "Serei, se mo permitires. A brevidade vem com a velhice: percebemos que o silêncio é o sono da palavra, e, neste mundo ensurdecedor, já falamos demais". "Pois. Que história, então?"

Era uma vez. Todas as histórias de encantar parecem iniciar-se por esta expressão, suponho. E esta não é uma história de encantar dotada de encantos invulgares, odores mágicos ou reinos esquecidos. É uma história de encantar, ou desencantar, se o teu coração quiser lê-la assim, tão vulgar e desbrilhosa como milhares de outras, desvanecidas. Mas sim, era uma vez.

A esmeralda calou-se. Sentiu que o seu verde, pelo primeiro momento em milénios, soçobrava. Algo estava errado.

26/11/2010

Animar a malta



O que faz falta

Quando a corja topa da janela
O que faz falta
Quando o pão que comes sabe a merda
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta

Quando nunca a noite foi dormida
O que faz falta
Quando a raiva nunca foi vencida
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é acordar a malta
O que faz falta

Quando nunca a infância teve infância
O que faz falta
Quando sabes que vai haver dança
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

Quando um cão te morde uma canela
O que faz falta
Quando a esquina há sempre uma cabeça
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

Quando um homem dorme na valeta
O que faz falta
Quando dizem que isto é tudo treta
O que faz falta
O que faz falta é agitar a malta
O que faz falta
O que faz falta é libertar a malta
O que faz falta

Se o patrão não vai com duas loas
O que faz falta
Se o fascista conspira na sombra
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é dar poder à malta
O que faz falta

24/11/2010

Dos gorilas



Quero lá saber que a fotografia esteja mal formatada.

É um abuso. Uma vergonha. Um atentado contra tudo aquilo por que lutámos, lutamos e lutaremos. A minha Faculdade de sempre violada pelos gorilas-redux.

É um dia enegrecido. É dia de greve geral. E era bom que a greve se prolongasse por luas, saturnos e uranos.

Isto não pode continuar assim. Precisamos de voltar a sonhar.

FCSH Lisboa :: PSP entra na faculdade e identifica estudante

FCSH Lisboa :: PSP entra na faculdade e identifica estudante

A minha faculdade. A nossa faculdade. Invadida por gorilas mentecaptos, pretorianos a soldo da podridão. E a minha alma mater violada sem apelo nem agravo.

23/11/2010

We will dance because we are the revolution.




É preciso dançar. É preciso respirar. A greve de hoje anuncia-o. A sociedade está viva e reagirá, a favor de uma vida nova. A favor de tudo o que nos dará um futuro. Já não somos contra nada.

Não somos contra a corrupção. Somos a favor da transparência.
Não somos contra a desigualdade. Somos a favor da igualdade.
Não somos contra a injustiça. Somos a favor da justiça.
Não somos contra o neoliberalismo. Somos a favor do controlo democrático da economia pelos cidadãos que a constituem.
Não somos contra a elite dominante. Somos a favor de um diálogo e de uma renovação sustentada.
Não somos contra o ódio. Somos a favor do amor.
Não somos contra o desemprego. Somos a favor do pleno emprego.
Não somos contra a guerra. Somos a favor da paz.
Não somos contra nada. Somos a favor do florescimento da humanidade.


Em suma, a minha geração já se cansou de ser contra tudo e contra todos. Hoje, somos a favor de algo. Somos a favor de um mundo novo. Não lutamos contra a infelicidade, mas a favor da felicidade.

Por isso, a minha maneira de protestar será sorrir. Será lançando gargalhadas implacáveis contra a classe política tecnocrática, ante a sua insignificância e demência crescentes. Não sei dançar, mas bambolearei o meu corpo. Não sei cantar, mas cantarei a plenos pulmões. Não sei desenhar, mas desenharei este mundo que é um sonho de todos os que não se deixam vergar aos indicadores, às produtividades, às eficiências, aos sistemas de controlo controlado e recontrolado. Nós ainda sonhamos. Nós ainda estamos por cá, ainda passamos as mãos pela relva recém-cortada, ainda dizemos "obrigado" quando nos sorriem de volta. E, por isso, sorrirei. Regozijar-me-ei, celebrarei a amizade, o amor, as ligações, a solidariedade, a cooperação, porque são elas que valem o esforço, o sangue, o suor, as lágrimas e as dores de cabeça.

Essa é a melhor forma de protestar. É a melhor forma de reduzir o neoliberalismo, o caciquismo, o aproveitamento ínvio do património público e as sevícias praticadas por moralistas à sua condição de rodapés da história.

Eu não sou contra o governo. Adiro à greve porque a sociedade deve mostrar que está viva. E mostraremos.