16/07/2012

I ain't got war in me no more


Também sou dono de virtudes cristãs. São músculos destreinados, estes. Perdão, compaixão, tristeza, redenção. Releio textos antigos (não tão antigos) e encolho-me, primeiro de desilusão e depois de reconhecimento: o ácido, a aspereza, a crueldade já não moram aqui. De alguma forma, terão sido estes anos, estas odisseias encrespadas, a ensinar-me que só se navegam águas furiosas escusando-lhes a fúria e lendo-lhes a alma. Porque é que ninguém ouve as tempestades e percebe que as nuvens rugem de tristeza? Bem-entendido, as nuvens também não se esforçam para se fazerem entender. Talvez tenham tentado uma, duas, três vezes, desesperando com o silêncio. Rugir nunca implica uma resposta. É mais simples, dói menos. E podemos rugir de muitas formas. Mas não precisamos de responder aos rugidos de quem já nos feriu.

Talvez seja essa a minha lição, a lição que voltei a aprender hoje. Já não me estatelo com o desmando de outrora; o espalhafato e as lágrimas ficaram guardados na Serra, longínqua e elevada, à espera de que volte para buscar-lhes a sombra. Provavelmente, perderam-se nos trilhos e nos cântaros, vadios e livres, o cheiro a altitude perdeu-mos e também não quero ir buscá-los. Talvez agora, mais leve, lágrimas choradas e incompreensões lançadas de um penhasco, possa regressar e ponderar. Não temos de passar a vida em gargalhadas melífluas. Não temos de viver com o horizonte toldado pelo medo da solidão.

E eis porque os meus esparsos cabelos brancos parecem hoje reluzir: o jardim dos caminhos que se bifurcam deu-me a escolher e preferi arrefecer as brasas que outrora teria pisado. As minhas fúrias estão noutras paragens. E posso olhar as estrelas, pensar nos sonhos que se transformaram em memórias sem ter vontade de queimá-las com ácido, e recolocar a Utopia no meu mapa. Aqui dentro, chega de guerras.

In Spanish there is a word for which I can’t find a counterword in English. It is the verb vacilar, present participle vacilando. It does not mean vacillating at all. If one is vacilando, he is going somewhere, but does not greatly care whether or not he gets there, although he has direction. Everything in the world must have a design or the human mind rejects it. But in addition, it must have purpose or the human conscience shies away from it. 
John Steinbeck, Travels with Charley 



09/06/2012

Um ano.

About today (a year ago... ish)

Fomos à luta. Perdemos. Perdeste. Fomos lutadores. Primeiro round. Foste ao tapete, mas eu estava lá. E levantaste-te, esmurrando-me, batendo no que nos unia, mas levantaste-te; sou forte, não ligo, as dores também nos fazem carregar mais areia, ficamos mais gente, ganhamos espaço cá dentro para suportar o mundo nos ombros.

Segundo round. Levantas-te e já não esmurras ninguém. Dependuras-te em mim e eu tenho força. Pões o braço direito à volta do meu ombro e sinto que somos outra vez dois companheiros da mesma viagem, embora eu tenha chegado vinte e tal anos depois. Nunca mo perdoaste. Cheguei tarde para te limpar as feridas, demasiado fundas e envenenadas para me deixares curar-tas. Tinhas medo que as visse, tinhas medo que as visse e me deixasse envenenar.

Terceiro round, já não consegues; tentas e desesperas, faúlhas desfazem-te o ânimo e os músculos, a alma também é musculatura, o amor é como lhe damos treino, quem ama muito tem a alma grande, e é assim que sabemos que vais partir. Mas eu estou lá e limpo-te as lágrimas. Pergunto-te se ainda estás acordado, tu dizes que sim, meneias a alma, a força toda num gesto e tentas dizer que sim, sim, ainda estou aqui, não me deixes fugir. Tocam as placas de madeira, dez segundos para o fim. O teu braço já não me rodeia o ombro, mas eu finjo que sim, e, em todo o caso, estou aqui.

Quarto round, a campainha toca antes de serem horas. Estou ali contigo e sabemos que saímos derrotados. Perdemos todos os rounds e preciso de seguir a viagem só. Olho para as cadeiras onde te sentavas e todo o mal que me fizeste continua lá, mas não é uma memória, é a realidade que debrua a nossa viagem. Não vejo o bem que me fizeste porque o deponho todo no mundo e deixo que os sorrisos me bastem. Porque, nisto das viagens, nisto de quem nos acompanha, os espinhos e as perguntas também pertencem à terra.

Não estive perto, no fim. Não estive perto. O que é que podia dizer? Estava longe.

Um ano.



Today you were far away
and I didn't ask you why.

What could I say?
I was far away.

You just walked away
and I just watched you.

What could I say?

How close am I to losing you?

Tonight,
you just close your eyes.

And I just watch you
slip away.

How close am I
to losing you?

Hey,
are you awake?

Yeah,
I'm right here.

Well,
can I ask you about today?

How close am I to losing you?

How close am I to losing?

03/04/2012

Servidão

«Há milhares de jovens licenciados desempregados mas não há valor económico na sua licenciatura. O sistema produz jovens [licenciados] que não servem para nada», frisou.

Releio esta afirmação. Não quero tresler ou ser injusto. Torno a ler. O meu cérebro processa-a assim: "O sistema produz jovens que não servem para nada".

Hoje, há alguém que considera ser apropriado dizer que uma quantidade indeterminada de seres humanos não serve propósito algum. Somos não-pessoas. Somos inúteis. Detemo-nos às portas da civilização e pontapeiam-nos na cara, zurzem-nos o ego e sibilam "vai-te embora, escroque preguiçoso, vadia, inútil". Cabisbaixos, muitos de nós incorporam a lógica totalitária que subjaz a esta sentença. Muitos de nós choram e deixam o olhar pousar-se nas pedras, talvez supondo que são dignas comparsas das gentes inúteis. É esta a vitória que desejam: partir-nos a espinha, tornar-nos submissas, deixar-nos combalidos e de ânimo destroçado. Blitzkrieg. Guerra-relâmpago. E a tempestade dura há muito tempo. São estes os novos capitães, os capitães da indústria, aqueles que os de Abril tiveram a ilusão de desalojar.

Portanto, eu não sirvo para nada. Os meus colegas de faculdade não servem para nada. Somos todos "funcionários", diz este empreendedor emérito. Não somos autónomos. Não conseguimos pensar fora da caixa, não somos criativos, não sabemos empreender.

Gostaria de enfurecer-me. Gostaria de sentir asco. Gostaria de revoltar-me e dizer que a retribuição está a chegar.

Pois bem, vou enfurecer-me. Sinto asco. Destas palavras e daquilo que as originou. E acho que a retribuição está a chegar. Precisamos de uma revolução. Uma revolução de empatia. Uma revolução de humanidade e humanismo. Porque nós, esses jovens serviçais sem serviço, essa multitude formada para coisa alguma, precisamos de ouvir estas pessoas e não assentir. Precisamos de sentir que o mundo é mais comprido e longínquo que os semicondutores ou as fotónicas. O mundo é grande e belo e enigmático; viu nascer Shakespeare e Rosa Luxemburgo; Petrarca, Dante e Emily Dickinson. Dou por mim a imaginar que lugar teria o bardo no mundo destes robôs. Seria, provavelmente, um publicitário; talvez trabalhasse num call-center e tecesse sonhos de uma noite de verão enquanto arrancava cabelos ao ouvir, pela enésima vez, a palavra "colaborador". Talvez Dante não precisasse de descer aos infernos para resgatar Beatriz; talvez lhe bastasse ponderar o inferno de viver à beira do desemprego. Bebi-lhes as palavras enquanto me tornei proto-funcionário, enquanto me tornei um alienado, um descolaborador - porque querer desenhar a condição humana sem recorrer a tostões e centavos é não servir para nada, é ter a ilusão de que podemos ser algo que nunca seremos. Uma classe de pobres, carteira vazia e espírito cheio, história curta e imaginação comprida, que tolhe estes animais, estes porcos imundos, anafados do sucesso, sentados na cátedra, proferindo julgamentos beneméritos e deixando subentendido um medo mortal, o medo de que a sua farsa se desmorone a todo o momento. E não haverá alguém que os informe da sua nudez; não ouviriam, de qualquer forma. A patologia de que sofrem é demasiado virulenta. Nós, os inúteis, os novos condenados da terra - poucos seremos (hoje mas não sempre, é essa a promessa), as migalhas da ilusão de uma igualdade que não podemos almejar, porque não servimos para nada, deixámos de existir como gente. Somos uma alcateia de lobos domesticados. E podemos uivar, porque ninguém nos ouvirá.

De facto, não lhes servimos para nada. Eu não lhes sirvo para nada. Cuspo-lhes na cara quando me querem conceder a liberdade de ser escravizado. Não conseguirão, prometo-vos, quebrar-nos. Durante muito tempo, não quis acreditar. Ainda tenho dificuldade em articulá-lo. Mas cada vez me parece menos implausível considerar que o mundo está a retroceder e a recuperar suseranias, vassalidades e corveias várias. Pois bem: puta que vos pariu, senhores. Puta que vos pariu a todos, mais o vosso discurso imundo e os vossos olhos torcidos. Chegará a hora em que nenhuma das vossas palavras ficará ao abrigo da história. Nem dos historiadores, que vos escrutinarão e demolirão como porcos facínoras que são. Não vos servimos para nada, e cada vez serviremos menos. E será essa uma das nossas bandeiras. Não vos serviremos para nada. Mas lembrem-se: a consequência de não vos servirmos para nada é que vocês também nos servem de pouco. E isso deveria fazer-vos tremer, à noite, na escuridão das vossas certezas opulentas.

Uma pergunta que me enegrece as horas: até quando suportaremos desaforos deste calibre?

19/02/2012

Eu não estou aqui

Eu não estou aqui. Eu não estou em lado algum. Eu sou um esqueleto de etiquetas. Eu sou um monte de esperanças chocadas no vazio. Sou a minha família que desconfia de saber pensar e reflectir e considerar e meditassentir. Sou as minhas amigas que se apanham em corridas montanha acima, sou os meus amigos que se apanham a rebolar montanha abaixo. Estou no meio desta gente toda e sou um nevão que ensimesma por só saber nevar. Eu só sei nevar. Não nasci para estar aqui. Nasci para estar em lado nenhum, hibernavegante num mundo de fatiotas e sotaques imperiais, porque não falo estes idiomas, porque ser bom só, só não chega, e eis que aparecem os apocalipses, estou tão preocupado, estou tão preocupada, estamos tão preocupados contigo, tens tanta coisa aí dentro e em cima dos ombros, sabes tanto, leste tanto, conheces tanto, mas o teu rumorejar não nos convém, porque a era da técnica é implacável. Ou sabes fazer ou extingues-te. Ou sabes realizar ou apagas-te.

Eu extingo-me e ainda sou um empecilho.

Eu apago-me e ainda nada fiz.

Sou um conglomerado de aspirações e incertezas, porque tomo decisões erróneas mas sou brilhante, porque faço coisas estúpidas mas sou excepcional, porque me convidam para escrever sobre coisa nenhuma e sou muito importante num microcosmos que nem o mais imponente dos microscópios de Jansen ou Anton van Leewenhooken (ou lá como se escreve isto, eu sei lá, gosto de nomes estranhos, gosto de coisas esquisitas, nomes evocativos, finjo coleccioná-los para não me sentir só, para sentir que este mundo ainda encerra mistérios e nem está potencialmente do nosso lado da cortina).

Sou um número indeterminado de pontos de interrogação (até me fazem as hastes dos óculos, até me constroem a forma de perceber o choro de um menino birrento, sou todo pontos de interrogação, acho que os meus cabelos não são verdadeiramente encaracolados; estão apenas debruçados sobre o problema da sua própria caducidade, e tão preocupados com insondáveis trivialidades que se encaracolam de forma vil), tem calma, sê sereno, sê tudo o que puderes, estou aqui para ti, estarei ali para ti, sim estás sempre lá para mim, mas nas horas difíceis estive sempre só e tive que ser eu mesmo a limpar as minhas próprias lágrimas. E não há ser tão só como aquele que chora a perda e ainda precisa de ser ele próprio a consolar-se, porque, para lá da porta do quarto andrajoso, o mundo é feio e imundo (mais imundo) e hostil e todas essas coisas com que nos debatemos, porque queremos um mundo belo e versátil e resistente, apesar da evidência óbvia, obviedade evidente, de que o mundo estaria bastante melhor sem seres humanóides.

Não, eu não estou aqui, ali, aí, em lado algum. Eu não estou do lado da técnica e quero rezar, mas não sei a quem ou a quê. Olho para o lado e vejo milhares de crentes no culto da maçã, rezas intermináveis a um deus deuzinho, escondido no bolso, aplicações para saber se deus existe é que nenhuma, embora desse jeito, e dar jeito é coisa fundamental, é o nec plus ultra de tudo, só existimos se dermos jeito e soubermos vender a alma. Eu estou do lado da alma precária e preciso de chorar. E preciso de saber se este mundo é encantado e medir-lhe o encantamento e injectar-lhe encantamento, a ver se descubro o coração das trevas e o transformo em coração de outra coisa qualquer. Tem calma, sê sereno, o povo é sereno, o povo é isto e aquilo e tudo o que nós quisermos, mas precisamos de ter uma função, precisamos de competir e ter coeficientes, se me meter dentro de um computador será que ele me decifra?, é o que lhes pergunto, aos alquimistas da razão, aos religiosos dos coeficientes.

Eu não estou aqui. Eu não estou em lado algum. Eu não sei fazer nada e vim para terras inóspitas saber se não fazer nada me podia satisfazer. E não tenho atalhos.

14/02/2012

tentativa

tu queres histórias
e queres mitos
e desejas mundos e fundos e ladeiras por onde descer
que fundos e ladeiras e mitos e histórias são
Invernos, porque somos portuguesas e eses e esas,
e pretos,
e brancos,
quero salvar-te mas não sei de quê;
quero descobrir-te mas não sei porquê;
são mundos e margens de rios.

tu queres mitos e queres histórias e queres os mundos e fundos das lágrimas
que te choram sem apego. queres as coisas, queres ser coisista, queres que as coisas se tornem
no Ti, no Teu, no teu Deus, compras em lojas de luz, compras doces e amargas,
somos todos Portugueses, portugueseS, somos o pregão da lua apagada,
andamos às escuras, andas às escuras em busca de histórias e eu não tas posso contar,
já as esqueci,
deixa-me chorar agora,
esqueci-me das histórias, esqueci-me de que os homens são mitos primeiros e segundos,
e terceiros-quartos-milionésimos,
porquê?, tu desejas mundos e fundos e ladeiras por onde descer,
e eu choro-te esses mundos e fundos e ladeiras por onde navegar,
é o mar que nos navega, é esse bandido que nos prende.

tu queres histórias e mitos e pregões de luas apagadas-acesas-meia(luz).

14/01/2012

Dois mil e doze


Dois mil e doze. Ano de luta e frases longas. Deixo as frases curtas para uma releitura de Molero e de Márquez, do Outono do Patriarca e Dinis Machado. Deixei as resoluções no mundo em que não tinha cabelos brancos e ainda tinha o meu pai por perto, a embirrar com as estrelas porque os desenhos as dizem de cinco pontas e não, elas têm mil milhões de pontas e outros mil milhões de brilhos curtos e longos. Era uma revolta que sentia com as representações do mundo, os seres humanos não têm ambição, esqueceram-nas grutas de Altamira, era nessas épocas escavadas que os artistas queriam pintar uma realidade nova nas grutas para esquecer um friasco danado, a carne de boi a crepitar e aqueles olhos crespos (talvez fossem as sobrancelhas a fazer reflexo na parede e terá nascido Deus e o Buda e Alá e todas as coisas que deram novos homens ao mundo) a pintar mais pontas nas estrelas do que elas têm na realidade. Os seres humanos já não sonham as utopias nem se deixam sonhar por elas; vejo-as anafadas, rutilantes, dormem num livro de histórias e nós todos não passamos de folhas de erva, planetas e planetas como gotículas nos sonhos das utopias anafadas. E o pior é que nunca mais acordam, dizia ele, o meu pai, nunca mais acordam e nunca mais fazemos a revolução, para estes cabrões serem todos passados a fio de espada, primeiro os pretos e depois os brancos - mas pai, não podes fazer a revolução socialista se acreditas nessas coisas - rapaz, deixa-me ser o que sou, porque, no fim, somos todos irmãos e não deixo o meu irmão preso na estrada, tronco no alcatrão fundido, só porque é preto ou chinoca; nisto estamos todos juntos e eu até gosto mais da pretalhada que desses ordinários, essas coisas nefastas que adoram o dinheiro e vão à missa comungar, mas não tocam no pão ázimo, tomaram o gosto das notas e preferem comê-las. Rapaz, só não me faças a desfeita: renega a religião, mas não te renegues nunca, que o teu maior tesouro é não sonhares com a servidão. Se deixas a coluna quebrar, até podes voltar a andar, mas nunca deixarás de rastejar, como estes penteados, esta classe de bandidos que corta árvores de madeira rara, esses colossos com que sonhei e não vou ver, para palitar os dentes, um de cada vez, afiado com moedas ensanguentadas, fincam a dentuça na carne e tu não deixes, rapaz, tu não deixes, que eles fazem-te doente, aquela fúria de nunca verem quem amam, onde é que isso já se viu?, quem é capaz de viver nessa fúria lamacenta?, vê só onde deixaram o mundo. Tens que fazer qualquer coisa, filho. Não te deixes levar por estes filhos da puta. Foi isto que ele me disse, no último olhar. E eu gostaria que isto fosse ficção, mas não é. Respirei o ar da morte e afundei-me naquele sofá, à espera que um vórtice se abrisse e o tempo andasse para trás. Mas não anda, para trás ou para diante, a não ser que Prometeu seja um labrego de tractor e se recuse a mexer o rabo. E é este o nosso desafio: ler nos olhos de quem nos deixa e tentar ver as grutas de Altamira, sonhos de um mundo justo e relações entre pessoas que não sejam mediadas pelo afã de saber exactamente quanto devemos uns aos outros. Se, um dia, puder dever tudo a todos sem preocupar-me com quanto devo, este universo será menos perverso. E talvez possamos olhar as estrelas, fazer amor com o tecto celeste, achar-lhes a lógica e sentir a história de mil mulheres entrar-nos no corpo, ali rodeados de ulmeiros milenares, ou salgueiros, quem sabe que árvores?, para voltarmos a saber o que é maravilharmo-nos com silêncios e sussurros. Se dois mil e doze for isto, se puder ver grutas de Altamira nos olhos de quem vir partir e o fim da Terra nos olhos de quem chegar, pode ser que ainda cá esteja no dobrar da alvorada.

24/10/2011

Perder a memória



Acordei com medo de perder a memória. Lembrava-me, repentinamente, de tudo, Funes renascido, esquecia-me vertido um segundo. Era um turbilhão. Acordei e pensei que um dia esqueceria este medo. Fiapos de gente que também seria esquecida.

"Onde estás?". "Nos confins". "Onde, mesmo?". "Nos confins, essa terra de todos e gente nula, onde a memória se debruça num lago e acabar por sonhafogar-se em recordações". "Estás, portanto, à espera". "Sim, à espera, mas não de algo ou alguém". "Porque esperas, nesse caso?". "Espero até esquecer as mágoas. Espero até não achar mais os confins, até que eles me pareçam o centro de tudo e não lhes perceba a fronteira". "Aguardas a tua morte, é isso?". "Não, aguardo o tempo em que acordarei com medo de perder a ideia de morrer. É que perder a ideia de morrer significa perder a ideia de suspirar, o jeito de viver, a candura de amar um amor surripiado". "E a morte de outrém? A minha?". "A tua não a posso esperar. É um segredo teu e das tuas pegadas. Olha bem para elas. Se tiverem uma sombra penumbrenta, ela está à espreita".