24/10/2011

Perder a memória



Acordei com medo de perder a memória. Lembrava-me, repentinamente, de tudo, Funes renascido, esquecia-me vertido um segundo. Era um turbilhão. Acordei e pensei que um dia esqueceria este medo. Fiapos de gente que também seria esquecida.

"Onde estás?". "Nos confins". "Onde, mesmo?". "Nos confins, essa terra de todos e gente nula, onde a memória se debruça num lago e acabar por sonhafogar-se em recordações". "Estás, portanto, à espera". "Sim, à espera, mas não de algo ou alguém". "Porque esperas, nesse caso?". "Espero até esquecer as mágoas. Espero até não achar mais os confins, até que eles me pareçam o centro de tudo e não lhes perceba a fronteira". "Aguardas a tua morte, é isso?". "Não, aguardo o tempo em que acordarei com medo de perder a ideia de morrer. É que perder a ideia de morrer significa perder a ideia de suspirar, o jeito de viver, a candura de amar um amor surripiado". "E a morte de outrém? A minha?". "A tua não a posso esperar. É um segredo teu e das tuas pegadas. Olha bem para elas. Se tiverem uma sombra penumbrenta, ela está à espreita".