29/11/2012

Futuro, parte I

(para uma filha que ainda quero ver nascer)

Ainda não nasceste e já te quero pedir desculpa. Quero pedir-te desculpa porque, provavelmente, não verás o mundo que conheci. Não é o melhor dos mundos. Todos os dias se anunciam novas catástrofes naturais e artificiais. Todos os dias surgem novos focos de conflito. A cada hora, morrem crianças e sofrem mães. Mas ainda é um mundo onde podemos viver, pensar, sentir, e desenhar. Esta parte do mundo, pelo menos. Este quinhão que te quero deixar, cheio de defeitos e coisas belas.

Ainda não nasceste e já te quero prometer muita coisa. Nunca é bom sinal. Se prometo a esta distância e não sei se posso cumprir, levanta o sobrolho e duvida. Se o fizeres, ficarei feliz. Duvida. Nunca deixes a dúvida sair-te do corpo. Nunca deixes que te convençam de que duvidar é mau ou que hesitar é sinal de fraqueza. Pelo contrário. Ter dúvidas é sinal de humanidade e hesitar significa que pensas. Nunca deixes de pensar. Nunca permitas que te digam "pensas demais" ou "levas tudo demasiado a sério". Só os fanáticos têm certezas absolutas além do amor que sentem.

Ainda não nasceste e quero dizer-te que lutei. Lutei para que tivesses o direito a pensar por ti. Lutei para que pudesses gritar quando discordas. Provavelmente não o fiz da melhor forma, porque esta época é escura, é um breu completo, e não sabemos quando terminará. Ainda podemos ir a hospitais sem empenharmos as nossas vidas, mas já não sabemos se poderemos tratar cancros sem encher os bolsos a facínoras que riem ao comparar o negócio da saúde ao das armas. Ainda podemos entrar em escolas sem ter de pagar, embora tenhamos que pagar as nossas universidades e o nosso conhecimento. Porque educar, formar e treinar não são direitos fundamentais, neste mundo; aqui, o direito ao lucro (ainda) tem mais força. Porque nem toda a gente percebe que é importante toda a gente gozar de saúde plena e de uma inteligência vivaz. Porque há gente, se lhes posso chamar assim, que anseia por um mundo tenebroso e injusto, um mundo onde pessoas sofrem porque não têm moedas para comprar água e livros. Espero que continues a lutar contra estes facínoras. Eles e elas andarão por aí quando leres isto. Eles e elas andam sempre por aí. É uma lição dura: se queremos um mundo livre, é preciso aceitar quem odeia a liberdade e constrói altares de vidro a deuses de papel. Mas, quero acreditar, poderás encostar o ombro àqueles que amas e construir. Ter uma ideia e fazer algo de novo. Não consigo imaginar-te nada, porque não imagino profissões, apenas estados de espírito. Imagino-te desafiante e inquieta. Imagino-te de voz firme. Imagino-te de viagens a todos os países desta terra. E imagino-te de cabelos longos e rebeldes, olhos semicerrados e cristalinos, pensativos como os meus, risonhos como... os de alguém.

Ainda não nasceste e já te quero cheia de utopias. Não quero que desprezes as utopias. Foram maltratadas e não podem sê-lo. Também não podemos exagerá-las. Só podemos usá-las para caminhar, como disse alguém. São muletas e aguarelas para colorir todos os sonhos que engendramos. É para isso que servem. Quando te oferecerem uma utopia, duvida. Constrói a tua. Se te disserem que és utópica, toma-o como elogio e concorda. Nunca digas que és realista ou pragmática como resposta. Ninguém é realista sem ter a nostalgia de uma utopia. Ninguém tem pragmatismo se não sonhar à noite. As utopias são muletas que nos dão firmeza. Mas nunca cesses de duvidar.

Ainda não nasceste e já quero agradecer-te. Estou a escrever para ti sem ter a certeza de que estarás comigo. Mas sei que serás uma bênção. Apesar de haver quem te queira reduzir a uma folha de cálculo. Quando te quiserem fazer isto, grita. O futuro não é uma pilha de folhas de cálculo. O futuro é uma muralha de almas em chamas.

(...)