30/12/2010

A ponte que não era ponte


Portanto, talvez este retrocesso signifique qualquer coisa. Talvez resolva os nós górdios. E talvez cauterize os borbotões de fúria que crepitam debaixo da pele. A raiva, essa, evanescente, desapareceu. A fúria está aqui, estrepita, sedenta de esperneio. Mas não te dou a autorização que almejas, pelo que podes sentar-te, reler as estrelas e aguardar melhores dias. Garanto-te que virão.

Pode não significar nada. Reconhecer a miragem não lhe retira atractividade. Continuamos a esmagar-nos mutuamente por miragens todos os dias repetidas na televisão, miragens que sabemos serem-no, ilusões prestimosas que passam por shot de irrealidade, ou cigarro de ópio, ou riscos de ouro branco. Mas é duro.

Soam os trovões e continuo a cismar. No que não foi e podia ter sido. No que foi e podia não ter sido. No que não foi e não podia ter sido. Dizem-me que devo tirar ilações. Concluir, extrair silogismos.

Mas para quê? Porque é que os seres humanos são avessos a questões abertas? Why the fuck do we require closure to get by? Não, não preciso de tirar ilações; preciso, somente, de pensar. De pousar a mente e aquietá-la, para que as luzes não a perturbem, enquanto encadeia uma e outra ideia. Para que narre uma versão, a sua versão, não precisa de ser a melhor, a mais polida, a mais crua ou a mais convincente, apenas a versão de si-mesma, a proximidade menos estranha, para que os caminhos sejam menos sinuosos, para que as vontades sejam menos indomáveis, para que a solidão pareça cada vez menos venenosa.

E, enquanto recolho os despojos da guerra, desse atordoado conflito que trespassou o meu corpo-país, tento recobrar, remendar, remediar, recurar, tudo o que julgávamos ter ficado, e não ficou.

É que, hoje, fiquei com outra impressão. De que ambos estávamos iludidos. Pensávamos que o nosso segredo era a cumplicidade. Mas já não temos segredos, porque a cumplicidade se esvaiu. E ficámos presos a uma recordação.

Volto a ficar só. Fiquei preso. E "é normal". "É normal" que assim seja. E pegamos nas pernas e pagamos a um batalhão de psiquiatras que nos desnormaliza, renormaliza e anormaliza.

Penso que nunca mais sairei desta prisão. E penso mal. E torno a pensar bem - noites escuras há muitas, tudo depende dos nossos olhos e da sua preparação. Não somos lemures, bem-entendido, mas somos primatas complexos, podemos preparar-nos.

"Eu achava que isto ia ser para sempre", diz ele. És estúpido, é o que é. Que isso do "para sempre" foi escavacado pelo Einstein, depois pela menina do café onde ias tomar um bagaço surripiado a vontades alheias e, finalmente, pelo Programa de Estabilidade e Crescimento. O "para sempre" não é teu, nem poderia sê-lo. Que a solidão é mais difícil de enfrentar quando é só nossa; terrível destino para gente que se considera boa, boazinha, tão-tão boazinha que se molha ao oferecer comida quente, só o emprego é que não, nãonãonão, nem ideias, nem pensa-por-ti, muito menos livros, bombas nem pensar, porque fora da caixa é para os bons, os lavadinhos. E tergiverso.

Voltando à terra e ao tom diarístico, agora que os bisbilhoteiros, acossados pela dose cavalar de texto críptico e incompreensível, debandaram. Descobri que era uma ilusão. A pior das ilusões, a de uma cumplicidade que existiu, de tão palpável, de tão crível que era, e, como síncope do coração do mundo, esfumou-se.

Porque é que o ser humano consegue travestir a sua vida em farsa e, mesmo assim, erguer o nariz, em tom desafiapedante? E porque é que enviei emails em borbotão, tentando reerguer uma ponte desfeita onde já não há solo para plantar nem uma árvore?

Uma tentativa, e outra. Talvez não possa reerguer esta ponte. Terei chegado tarde demais, depois de me embrenhar na floresta do remorso. Certo é que já não há solo. Nem mesmo margem. Nem outro país com o qual construir algo de novo.

Desapareceu, simplesmente.