21/05/2013

Discos III


E podemos descobri-las, a estas pessoas que são, feitas as contas, a banda sonora de uma vida bem vivida, uma vida excelente (se o Aristóteles não se enganou)? Podemos inventar um método ou uma estratégia para facilitar a sua descoberta?

Não, não podemos. Só podemos respeitar a nossa fisionomia. Uma boca, duas narinas, dois olhos e dois ouvidos. Passar demasiado tempo a falar implica não exercer faculdades olfactivas, visuais e auditivas. Passar demasiado tempo a falar significa que temos um modo rígido, pré-definido de interpretar a realidade. E é isso que nos impede de ouvir o groove, o ritmo destas pessoas, destas pessoas ricas, densas e quentes que só podem sê-lo se forem opcionais, se tiverem sempre uma saída possível e nunca estiverem obrigadas por um contrato, formal-informal, a passar um número de minutos definido connosco.

Reparo no carácter inerte dos meus discos. Não é comum que os discos de vinil vagueiem por aí, noctívagos ou diurnos. Também reparo no carácter inerte dos CD que restam por cá; na lista infindável de MP3 que se perdem por este computador adentro. Mas não posso tocar-lhes - não posso agarrar num CD e girá-lo entre as mãos para mudar de lado; posso trocar de MP3 com um toque no teclado e não preciso de prestar atenção à agulha enquanto troco de faixa. É sempre uma questão de cuidado, uma questão de afecto. Não podemos tratar um disco de vinil como tratamos um CD ou um MP3; é uma memória física que precisamos de tratar com delicadeza, não porque os discos exijam essa delicadeza, mas porque é uma das condições necessárias para que possamos respeitá-los como guardiães desse tal som misterioso, quente-rico-denso. E precisamos de tratá-los com delicadeza porque também é isso que faz do seu som algo mais que uma repetição de zeros e uns. São os seus rituais, os nosso rituais, que nos tornam próximos; são as coisas pequenas, como o grão de pó apanhado pela agulha, que tornam o som de um disco eternamente irrepetível. Nenhuma faixa pode ser repetida. Porque depende da forma como colocamos o disco no gira-discos (e do gira-discos em si mesmo); da forma como colocamos a agulha - a pressão, a aspereza (que pode riscar a superfície do disco e danificar-lhe a perfeição), a delicadeza com que a pousamos no disco; a atenção ao estroboscópio, para que o disco possa tocar por si e para si (e para nós, mas nunca para nós em primeiro lugar). São discos únicos e irrepetíveis porque não são representações digitais; são música em si, são canções em si.

E é por aqui que vou. Os discos de vinil não estão nunca inertes. Estão sempre a tocar e só lhes colocamos a agulha para podermos ouvir o que tem para contar-nos. E talvez, se tivermos cuidado, possamos começar a perceber-lhes o carácter irrepetível, o facto de não podermos descobri-los (ou descobri-las), mas de serem eles (e elas) a descobrirem-nos também, ou de ser um processo de descoberta mútua, uma multitude de elementos irrepetíveis, como tocar uma faixa trezentas vezes seguidas sem que ela soe semelhante uma única vez, e deixar que seja essa delicadeza, a delicadeza do silêncio quando também precisamos de deixar um disco repousar (porque não podemos ouvi-lo para sempre, porque há sempre uma audição final, porque o disco pode ficar empanado e choramos porque sabemos que, apesar de podermos continuar a tentar ouvir, o som já não será quente-rico-denso, mas apenas uma memória cacofónica) e, se ele quiser, nunca mais ser ouvido.

Todas as vidas têm uma banda sonora. Todas as bandas sonoras têm temas centrais. E esses temas centrais são sempre espaçosos, eloquentes, grandes e opulentos. Mas as bandas sonoras de uma vida são feitas de outras vidas, vidas de vinil, vidas que não são pilares, vidas que não podemos conceber como inevitáveis ou indispensáveis ou necessárias e suficientes. Essas vidas são a diferença entre uma banda sonora quente-rica-densa - uma vida quente-rica-densa - e uma banda sonora. Toda a gente tem uma. Toda a gente procura uma. Toda a gente tem medo de perdê-la, ou de perder uma pessoa-canção central para si. Raramente pensamos na gente-música que dá tonalidade às coisas fugazes e consegue torná-las menos fugazes, menos repetíveis, menos banais. E nem toda a gente tem medo de perder uma pessoa-canção que não se preocupa com a sua dispensabilidade; que se mantém ausente (embora as ausências também marquem tonalidades, também mudem o ritmo da banda sonora de que fazem parte) ou decide povoar outras paragens; que é demasiado subtil para quem passa demasiado tempo de ouvidos fechados e boca aberta; que é demasiado preciosa para ser preciosa, tem mais brilho porque se recusa a brilhar, é mais quente-rica-densa porque se recusa a ser mais quente-rica-densa. E, porque só pode ser isto tudo se puder ser opcional, se nunca pusermos condições e se nunca nos puser condições, é fácil - demasiado fácil - esquecê-la, ou refazê-la à medida do que as nossas vidas auto-centradas exigem. E, de repente, já não é uma pessoa-canção, mas o refugo de algo importante, mas eu já nem me lembro porque é que estás aqui, o teu prazo de validade venceu, já te dei uso e agora deito-te fora, afinal de contas porque é que és importante, diz lá?, e ela nunca tem resposta, porque não precisa de tê-la, nem de de dá-la, nem de inventá-la, porque nunca ser central é uma bênção maldita, porque ser um disco de vinil na era da velocidade maquinal significa que se recusa a ser dominada por gente obsessiva, e, mesmo que chore em privado (as canções também choram, e quem não acredita que vá ouvir Dylan), há muitas vidas por esse universo fora que precisam de um som quente-rico-denso.

Sim, todas as vidas têm uma banda sonora. Não é que precisemos de música; não é que precisemos de discos de vinil; não é que precisemos de pessoas-canção. A verdade é que elas (a música, os discos de vinil e as pessoas-canção) também não precisam de nós para nada. E é por isso que não podemos descobri-las. São elas que nos descobrem. E são elas que decidem quando ficar e quando partir.